• Kanucha Barbosa

Aprendendo o ABC

Imagine ter de apresentar pela primeira vez a uma criança de 5 anos a relação entre as letras e os sons. Não deve ser um trabalho simples. Agora, pense em fazer isso virtualmente, em meio à pandemia... Para a professora paulistana Roberta Almeida Faro, essa é a realidade. Mãe de dois meninos, de 10 e 12 anos, Roberta se desdobrou para se adaptar à nova rotina no trabalho (uma escola particular de São Paulo), usando ferramentas inéditas a ela, e à nova rotina em casa.


"Todos os meus alunos fazem 6 anos até o fim do ano. Estamos na fase do início da alfabetização mais 'formal'. É o começo da sistematização de todos os anos iniciais de trabalho. Uma fase encantadora". De encontros menores no Zoom a aulas de dentro de uma tenda de acampamento, a criatividade tem que rolar solta para que as coisas se tornem um pouco mais leves, tanto para ela quanto para os alunos e suas famílias. Confira nosso papo!






Imagino que, no começo, não havia nenhum plano de ensino remoto. Como foi essa fase de adaptação?

Nenhum plano. Foi um dia após o outro... Trabalhamos muito, com acertos e erros, fomos alterando o plano de trabalho, aprendendo a usar o zoom como ferramenta essencial, de conexão com os alunos. Foi uma fase de difícil para a escola, famílias e crianças.

Se você pudesse descrever estes 3 meses de quarentena no seu trabalho como professora, como seriam?

O primeiro mês foi um verdadeiro caos. Aos pouquinhos, fomos compreendendo o que todas essas mudanças estavam significando e o caminho que tínhamos que seguir. Escutar as famílias foi fundamental para compreender o que tínhamos que melhorar, como atuar, já que os pais estavam fazendo o papel de professores em casa. Atualmente, passo a manhãs de terça, quarta e quinta em zoom com os meus alunos em grupos de 4 crianças. Nesse novo formato, podemos estar mais perto das crianças e do processo de aprendizado deles. Como as relações têm que ser preservadas, optamos em deixar segundas e sextas-feiras como dias de encontro de toda a sala. São momentos mais de brincadeiras e jogos, onde a alegria das crianças em se reencontrar contagia o encontro. Fazemos festa a fantasia, dia do brinquedo e etc...

Quais são as maiores dificuldades de se ensinar à distância?

Nossa, são várias. Entrar nas casas das famílias é um grande dificultador, pois os pais acabam fazendo um papel que não lhes cabe e na maioria das vezes, para eles, é angustiante. Manter a atenção das crianças à distância é outro desafio, além de, claro, conseguir ensinar conteúdos tão abstratos e complexos como, por exemplo, a soma. Nessa fase, o aprendizado é feito de forma completa, vivência, troca, contato e isso foi tirado das crianças abruptamente e de nós professores também.


Quais são os desafios por parte dos alunos que você sente?

Estar distante do outro, da escola, de sua rotina diária são os maiores. Muitos já me disseram: “Queria tanto tomar lanche na escola com você!”, “Essa brincadeira pela televisão já não quero mais”. Outro grande desafio é eles entenderem que temos que travar os microfones e, através do sinal que combinamos, destravo o microfone para falarem. Isso é muito triste, pois como já disse, o aprendizado é feito com contato, trocas, e quando você não pode deixar que eles se expressem de forma natural, muita coisa se perde. Já tentei muitas vezes deixar os microfones todos abertos e eles conseguem manter os nossos combinados em vigor, a questão é que a casa deles tem movimento e os ruídos do entorno não permite essa alternativa, a aula fica uma zona com os ruídos e ninguém consegue se escutar.


E os desafios dos pais?

Nossa, são vários. Eles não conseguem ficar longe dos filhos, mesmo que pedimos e explicamos a importância deles se sentirem conectados com as professoras e colegas. O aprendizado se faz por erros, trocas e os pais enxergam os erros com desespero. Acabam falando, apagando e “invadindo o espaço do filho” por tanto amor que sentem. Observo que para as famílias a frustração do erro é muito grande, “meu filho não consegue, ele tem problema?” Não percebem que estão atrapalhando mais do que ajudando. E para nós, professores, temos que compreender que não estamos no nosso espaço, estamos dentro do espaço deles e temos que respeitar a todos. Assim, os desafios e as variáveis são enormes.


Você, como mãe de dois meninos, também está sentindo as dificuldades do outro lado da tela, de auxiliar os filhos no estudo remoto. Acha que isso contribui para a empatia em relação aos pais dos seus alunos?

Meus filhos já são mais velhos, 12 e 10 anos, isso muda muito. Primeiro, eles não querem de jeito nenhum a minha presença e do pai ao lado deles. Conseguem compreender a ferramenta digital melhor que nós. Quando eles têm alguma dúvida, nos perguntam e normalmente são coisas mais pontuais. Percebo que os dois estão bem e eu confio muito na escola que escolhemos para eles estudarem. Sei que esse ano é um ano de outros aprendizados, como resiliência, paciência, afazer domésticos intensos, então não coloco pressão neles, e as coisas estão caminhando bem... Claro que ser mãe ajuda a compreender o lado das famílias dos meus alunos, mas sempre penso que elas podiam confiar mais na escola que escolheram para seus filhos. Erros e acertos andam juntos nessa fase que ninguém estava preparado para viver. Às vezes, sinto que os grupos dos pais de WhatsApp acabam se tornando um empecilho nessa confiança.


Caso as aulas retornem ainda neste ano, antes de uma vacina, quais são as maiores questões em sala de aula? Contato físico? Uso de máscara? Adaptação da matéria?

Tenho até medo de pensar em como será. Acredito que para todos os segmentos será muito difícil voltar com os novos padrões de segurança, em especial, porque o povo brasileiro é muito de contato físico. Agora, para os pequenos na escola, o contato está em todos os momentos: na roda, no desenho, nas brincadeiras. Não sei como faremos, na verdade, cada dia mais tenho a convicção que a escola presencial só se concretizará ano que vem, uma pena...


O que você acha que mais fica de aprendizado sobre estes tempos de isolamento?

Como mãe acredito que são as relações familiares. Estar todos juntos, 24 horas por dia, onde tem dias que estamos mais tristes, outros mais alegres, outros sem vontade de conversar e outros todos na cozinha preparando a refeição: estes são momentos de um significado único para o núcleo familiar. Eu e meu marido temos tentado mostrar as crianças o quanto isso é precioso na vida. Como ser humano, fica claro que somos vulneráveis e que as alegrias da vida têm que estar ligadas as relações, a convivência, as brincadeiras com que você ama, muito mais ser do que ter. Em relação a minha profissão, bom, além de tudo que já disse acima, dei um salto no uso da tecnologia. Editar vídeos, gravar, pensar em outras formas de ensinar com criatividade tem sido demais.


Você teve momentos de desânimo como professora?

Sim, muitos! De saber que meus alunos estavam sofrendo, de saber que os caminhos não foram os melhores, de voltar atrás, de escutar famílias reclamando de conteúdo. Na verdade, a essência do ser humano foi posta à prova.


O que você acredita que vai levar deste momento com você no futuro?

Tanta coisa, não só no âmbito profissional, mas também no pessoal. Aprendi a cozinhar alguns pratos, a costurar, além claro, de ser um ser humano que dá ainda mais valor à família, aos meus pais e amigos. Acredito que meu tempo será outro depois da pandemia, saberei dar mais valor as pequenas coisas do dia a dia.


52 visualizações
 

ENTRE EM CONTATO

 

©2018 by Projeto Sofia. Proudly created with Wix.com