• Kanucha Barbosa

Correio literário

Por Carlos Giobbi Filho





Hoje completo 120 dias em casa. Nesse tempo, muita coisa mudou e muito ainda vai mudar. Não só lá fora, como aqui dentro – sim, dentro de mim. Estar todos estes dias mais próximo da minha mulher e do meu filho pequeno foi uma das mudanças geradas pela pandemia. Francisco completou 1 ano nesta quarentena e pude passar um dia inteiro ao seu lado, o que seria raro para um pai que fica fora de casa 10 horas por dia.

Outra atividade que se intensificou por aqui foi a leitura (aqui tenho minha mulher como grande incentivadora).

No início de abril – de férias do trabalho, mas em casa – pude finalizar a ótima biografia “Winston Churchill, Uma Vida”, de Martin Gilbert. Este livro mostra como a presença de um líder admirado pelo seu povo auxilia a nação em momentos sombrios. Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, é a prova contemporânea disso. “A Lanterna na Popa”, memórias do economista Roberto Campos, com quem compartilho a mesma profissão, foi o próximo, quando eu ainda estava sem bater ponto.


O terceiro, antes de chegar ao ponto focal desta narrativa, foi a releitura de “Auto da Compadecida”. Alegre e descontraída, é uma obra que se que conclui em poucas horas tal a dinâmica da construção. Uma delícia! Um salve ao mestre Suassuna, onde quer que você esteja!!!

E aqui chegamos à razão deste texto. Pouco depois de iniciar “Minhas Histórias dos Outros”, de Zuenir Ventura, já de volta à rotina de trabalho, vi um post no Instagram de uma grande amiga - e brilhante advogada -, @marinamendonça, que procurava pessoas interessadas em participar de uma grande troca de livros. Tudo o que eu precisava fazer era comprar meu livro preferido (só um) e enviar a um desconhecido – Marina se encarregou de me passar o endereço dele (ou dela) por inbox. E se eu replicasse esta mensagem em meu perfil da rede social, meu endereço seria enviado a outros, que me presenteariam com livros.


Confesso que a proposta me trouxe um misto de emoção e estranhamento. Será que isso é correto? Funciona? Será que divulgo meu endereço para contatos de contatos para receber livros? Este papo de corrente é legal?

Meus pensamentos já começavam a brotar. Enviar só um livro e receber vários? Aí tem coisa... No mesmo instante, liguei para alguém que considero muito @ffltorres, para trocar impressões sobre este post: “Carlos, você percebeu que isso é uma pirâmide?”, disse ele imediatamente após o meu relato. “Mas, fique tranquilo, é uma pirâmide do bem, que faz o bem às pessoas (troca de livros), e o máximo que pode acontecer é você não receber os livros”.

A conversa ainda continuou por um longo tempo, desta vez sobre as maravilhas (e facilidades para multiplicar) que o digital e o tecnológico nos trouxeram. Se tudo isso não existisse, imagina ir à caixa de correio enviar livros a anônimos? Ai, que preguiça. No entanto, temos ao toque de um clique e-commerces que estão cada vez mais inseridos no nosso dia a dia. E enviar seu endereço a conhecidos de conhecidos? Como replicar sem a ferramenta digital?

Depois destas ponderações, minha emoção de participar já era maior do que o estranhamento inicial. E lá fui eu enviar uma das minhas obras preferidas, “Manuelzão e Miguilim”, de João Guimarães Rosa, a alguém (@martina_zajakoff, espero que você tenha gostado). Foi divertido, mas o melhor ainda estava por vir. Receber livros de desconhecidos é interessante não só pelo fato de ganhar um presente e um carinho (nestes tempos, qualquer carinho já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura), mas também pela descoberta das preferências de cada leitor. Biografias, autoajuda, romances, clássicos... A variedade foi grande.

Dos presentes recebidos, sempre acompanhados de gentis cartões, li o “O Príncipe”, de Maquiavel. Em seguida, “Clarice”, de Benjamin Moser, uma biografia da escritora Clarice Lispector. Os sofrimentos que seus pais passaram na terra natal (Ucrânia) ainda no início do século 20, apenas por causa de sua religião - eram judeus, é triste e chocante. E aqui faço um paralelo diante de tantas questões que estão vindo à luz nestes tempos sombrios: #BlackLivesMatters. Como nós humanos podemos ser ainda tão medíocres e mesquinhos?

“Cem Anos De Solidão”, de Gabriel García Márquez, clássico da literatura, é um daqueles que deixa o clímax para os instantes finais. “A Uruguaia”, de Pedro Mairal, não chegou a passar nem uma noite em minha cabeceira, foi lido de uma só vez. “A Paciente Silenciosa”, de Alex Michaelides, foi outro que durou apenas dois dias na cômoda ao lado da minha cama.

“Hibisco Roxo”, de Chimamanda Ngozi Adichie, “O Ponto de Equilíbrio”, de Christine Carter, “A Incrível Viagem de Shackleton”, de Alfred Lansing, “A Arte da Felicidade”, de Dalai Lama e Howard C. Cutler, “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso, são as minhas próximas paradas neste maravilhoso mundo literário. Uma variedade imensa. E assim como todas estas reflexões que citei em meu relato, estas obras vão me trazer muito mais o que pensar e descobrir, revelando a beleza desta experiência. Livros que, talvez, não me chamariam tanta atenção num primeiro momento, agora estão em minha cabeceira.

Obrigado a todos que participaram desta corrente. Em cada livro que leio aprendo um pouquinho com cada um de vocês.


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