• Kanucha Barbosa

Crianças francesas não fazem manha: um estudo antropológico

Li o livro da jornalista Pamela Druckerman nas primeiras semanas após o nascimento do meu filho e fui atrás de uma mãe brasileira que mora em Paris para debater algumas reflexões da leitura


Uma mãe americana em Paris é quase como um alienígena na Terra. Pelo menos é o que parece sob o olhar da jornalista Pamela Druckerman, autora de “Crianças francesas não fazem manha: Os segredos parisienses para educar os filhos”.


Sempre comparando com a criação americana (que na minha opinião se assemelha bastante à da classe média/elite brasileira), Pamela percorre os primeiros dias do bebê francês até o auge de sua infância. A preferência de mães francesas a não amamentar, a curiosidade das pessoas em saber se o bebê já cumpre a noite toda (por lá, parece que eles dormem a noite toda muito, mas muito cedo em comparação aos outros países, com 2, 3 meses), a alimentação, a corrida pela creche, a volta da mãe ao trabalho e ao corpo pré-bebê, as regras, o comportamento, as birras, a educação… Pelo que Pamela descreve, os franceses não param a vida por causa da chegada do bebê, pelo contrário, o bebê deve se adaptar à rotina da família. Os pais realmente valorizam a “hora dos adultos” e não menosprezam as crianças a ponto de torná-las seres alheios ao mundo real.


No livro, Pamela revela algumas técnicas, se assim posso colocar. Aproveitei para conversar sobre elas com a Elisa Ayoub, uma amiga brasileira que mora em Paris há séculos e teve seu filho (que hoje tem quase dois anos) na cidade francesa.


Sono: nos primeiros meses de vida de um bebê, existe um pequeno intervalo de tempo entre o momento em que ele desperta e é atendido pelos pais, chamado por ela de “a pausa”. Attendre, ou espere. Muitas vezes, correr para o berço assim que o bebê acorda irá definitivamente acordá-lo. Mas isso não significa deixá-lo berrando…


*Nota da Elisa

"A questão do faire ses nuits/ dormir a noite: todo mundo pergunta o tempo todo, desde que a criança nasce! E a técnica é o 5, 10, 15 minutos - deixar chorar nesse intervalo, entra no quarto e sai. E se não funciona, eles deixam chorando sim! Eu até tentei com o Martin, mas não deu muito certo. Em uma madrugada, ele chorava tanto que um vizinho bateu na minha porta para reclamar. Esse é o nível de tolerância que eles têm em Paris…"


Amamentação: Pamela conta que as mulheres não são tão encorajadas a amamentar na França, e que muitos bebês já saem da maternidade tomando fórmula na mamadeira. Confessa que até se sentia julgada quando se desdobrava para amamentar na creche ou para armazenar seu leite.


*Nota da Elisa:

"Os pediatras apoiam até um ponto. Depois dos 6 meses, a maioria acredita não ser mais necessário. O bem estar e a volta à vida de antes, conceito bem francês e repetido por todos os pais, é o principal. Precisamos levar em conta que aqui a liberdade da mulher é muito importante. Mas eu vejo cada vez mais mães amamentando, mesmo que por pouco tempo."


Creches: alguns bebês já começam a frequentar as creches públicas muito antes de completar um ano, mesmo se a mãe não voltou a trabalhar ou trabalha de casa. Eles parecem confiar muito na educação do governo, mesmo nessa fase da criança. Por aqui e nos Estados Unidos, muitos torcem o nariz para a palavra “creche”, mas por lá, elas parecem ser quase obrigatórias. Uma curiosidade: as crianças comem como pequenos adultos nessas instituições, com entrada, prato principal e sobremesa.


*Nota da Elisa

"Dificílimo conseguir uma vaga! Você paga em função do seu ganho anual. Bebês de 2 meses e meio (quando acaba a licença da mãe) já podem ir e os pais deixam mesmo. Sem culpa ou quase nada! Mas, a maioria das empresas têm começado a dar mais tempo de licença e para o pai também. Legalmente, eles têm 14 dias no total, sendo que alguns conseguem um mês e outros pegam férias. Sobre a comida: BLW é raro, rola muita papinha, sim, e muita mamadeira. É verdade que desde cedo eles começam a comer como a família. A criança não é rei e come o que for imposto."


Cadre: talvez a mais importantes das regras parisienses, a palavra “cadre”, que pode ser traduzida como “moldura”, é a junção de limites inegociáveis. Pense num desenho de um quadro. Dentro dele, a criança francesa pode transitar de uma maneira mais livre, no entanto, não pode ultrapassar suas bordas, ou sua moldura. Desta maneira, ela pode desenvolver uma personalidade própria, testar seus próprios limites e adquirir autonomia. Um limite inegociável para os pais parisienses, por exemplo, é que depois de certa idade, a criança tem o dever de cumprimentar propriamente os adultos. As palavras obrigatórias não são apenas “por favor” e “obrigado”, como aqui por estes cantos, são “Olá” e “Adeus”, assim ela se reconhece como um indivíduo e também a presença de outro no recinto.


*Nota da Elisa

"Criança é um adulto pequeno. Deve obedecer e se comportar desde sempre. É o saber viver em sociedade que se prima. Fazem birras sim, mas o nível de tolerância dos pais e da sociedade é baixíssimo, principalmente em Paris"


Considerações finais da nossa convidada ;)

"Uma coisa que muda muito aqui em relação ao Brasil é a participação do pai. Ele faz tudo. Os parques estão cheios deles sem as mães, que voltam cedo à vida de antes: viajam, saem com as amigas, etc. É bacana por um lado, só que às vezes acho muito extremista. No entanto, numa sociedade feminista, super compreensível!

O equilíbrio Brasil e França dá bom 😂"

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