• Kanucha Barbosa

De quem é a culpa?

Atualizado: Mai 21


Há pouco mais de um ano, com a maternidade, o sentimento de culpa tem sido algo recorrente na minha rotina. Às vezes, até tento racionalizá-lo. Procuro indícios que demonstrem se existe algum ganho positivo quando me sinto culpada por perder a paciência com meu filho, por exemplo. A verdade é que, para mim, a culpa é um dos instrumentos de manobra e manipulação mais controversos que temos que lidar como seres humanos.


Esses dias, uma vizinha quis derrubar o síndico do meu prédio no grupo de WhatsApp dos moradores, pois um funcionário testou positivo para coronavírus. “Estamos sem liderança”, ela disse, afirmando que o gestor não seguiu o protocolo e devia ser culpado por isso. Mas, espera, qual seria esse protocolo em um momento que estamos vivendo quase que no escuro? Em qual sentido fazer com que o síndico se sinta culpado nos ajuda?


Vários conhecidos postaram frases do tipo “Eu não estou vendo os meus pais, porque você está vendo os seus” em seus stories nos últimos dias. Meus pais nem moram na mesma cidade que eu, mas essa frase me trouxe incômodo. Se você consegue ficar isolado 99% do tempo na sua casa, ótimo, muito bom mesmo. Mas, em que culpar o outro vai ajudar? Nem todo mundo encara nosso presente da mesma forma.


Ficar em casa tem salvado vidas. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas, é preciso entender que nem todo mundo consegue dar o melhor de si. O mundo não é formado por super-humanos como você. E quando você aponta o dedo para o vizinho, de novo, gostaria muito de saber o que você e ele ganham com isso.


“Essa culpa eu não carrego”, muitos dizem em relação a eleição do presidente. Que legal que você não se sente culpado, mas quando você diz essa frase, afirma que outros têm a obrigação de carregar essa culpa. Sério, você ainda não percebeu que quem ganha com a polarização não somos nós? Aliás, você milita pra quê? Imagino que seja para que todos tenham os mesmos direitos básicos. Todos juntos. E culpar o vizinho não vai te aproximar dele.


Sim, eu sei que existem pessoas que contribuem com o caos que estamos vivendo. Responsáveis por atrocidades que resultam em mortes. E devemos cobrá-los. Mas, antes de sair destilando a sua lição de moral por aí, que tal entender que não encaramos a vida da mesma forma? Não somos capazes de lidar com os problemas da mesma maneira. É humanamente impossível.

Se a empatia for seletiva, ela não serve para muita coisa, certo?


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