• Kanucha Barbosa

Em casa, sozinha - Rafaela Bagagli


Nesta quarentena, tem gente que se mudou para a casa dos pais ou dos sogros, tem amigos que resolveram dividir a casa, tem aquele que está apenas com o parceiro e tem até gente que está morando no trabalho. Conheço uma amiga que se mudou para o interior com mais de 20 familiares… E, claro, tem gente que está sozinho.


No começo disso tudo, eu, que sempre gostei de ter momentos de solidão, mas atualmente estou impossibilitada por motivos de filho e marido, disse meio sem pensar para um amigo: “Nossa, deve estar muito gostoso ficar sozinho em casa, poder fazer o que você quiser…”. Ele me respondeu algo que me marcou bastante: “Muitas vezes eu não ouço a minha própria voz durante um dia inteiro, é muito solitário. O tempo se arrasta”.


Quase tudo tem sempre um lado bom e ruim. Ficar com os filhos é cansativo? Estressante? Sim. Mas pelo menos, em muitos casos, ter uma companhia faz as coisas ficarem mais fáceis.


Menos mal, estamos passando por este momento em uma era tecnológica, onde o mundo digital pode aproximar os que têm acesso a ele, o que pode amenizar o sofrimento de alguns, não só no sentido emocional. Mas nem sempre todo mundo está disposto para fazer um Zoom ou entrar na festinha do HouseParty.


Ao longo das próximas semanas, trarei entrevistas com pessoas que por opção ou não, estão sozinhos no isolamento. A primeira é Rafaela Bagagli, cofundadora da agência de comunicação Safir Buzz e poeta nas horas vagas. Ela, inclusive, vai comemorar seus 33 anos no começo de junho, provavelmente confinada… Acompanhando suas respostas, estão registros fotográficos de detalhes do seu dia a dia.





Você se lembra do dia em que percebeu que a quarentena havia realmente chegado para ficar?

A real é que a ficha não cai de fato se você não vivencia, né? Estou vivendo um dia após o outro, tentando organizar uma rotina ativa e com um certo “propósito” pra não enlouquecer. Qualquer pensamento negativo que vem, logo tento trocar por algo positivo. Meio idealista e naive, talvez.

Mas agora, em meados de maio, e o ápice da pandemia para acontecer no Brasil, está cada vez mais claro que tudo mudou. Há umas duas semanas, quando sai pra ir até o mercado, ver todo mundo de máscara na rua foi uma cena bem apocalíptica. Acho que foi aí que o choque veio.


Antes da pandemia, por morar sozinha, você já estava acostumada com a solidão? O que este estado significa para você?

Eu sempre curti ficar sozinha. Desde pequena me trancava no quarto e ficava lá, ouvindo música, escrevendo no diário, montando looks e criando histórias em frente ao espelho. A diferença de estar acostumada com a solidão, hoje aos meus quase 33 anos, é que, além da solidão, você tem que estar acostumada com você mesma. Num período ao mesmo de pausa e de mudança no esquema da rotina de trabalho, tudo caminha para você seguir seu próprio ritmo. E achar o seu próprio ritmo demora. Se eu não tivesse passado por uma experiência em 2018, quando fui morar em Nova York em pleno inverno norte-americano, sozinha e, pela primeira vez na vida, sem trabalhar, talvez hoje seria mais complicado.

Eu estava acostumada com uma rotina muito insana de trabalho, de pessoas, de festas, de eventos, de almoços, de ter que ir até algum lugar, de ter que responder todas as mensagens, de ter que aparecer no Instagram, de ter que…bla bla. E agora não é assim que funciona. Então, independente de estar morando sozinha ou não, a solidão antes de tudo é uma descoberta e um “fazer as pazes” com você mesma. Ter tempo pra você. Olhar pra dentro não é fácil, tem gente que nunca consegue lidar com seus próprios demônios. Mas uma vez isso alcançado, acredito que a gente avança mais uma casa na estrada da vida - haha que filósofa!


Como foram os primeiros dias?

Os primeiros dias foram fáceis. Tudo ainda era novidade. O primeiro chat do Zoom, a primeira ida ao mercado... As notícias no Brasil ainda não estavam tão complicadas quanto agora. Eu me arrumava, colocava salto para ficar em casa. Pra mim, hoje, te escrevendo esse texto, dia 19 de Maio de 2020 às 16:42, é o pior momento.


Você acha que conseguiu se adaptar a essa situação tão atípica?

Virou comum as festas de Zoom, virou comum FaceTime com a minha mãe, virou comum notícia ruim todos os dias na imprensa. E desde que li uma matéria da Revista Piauí falando sobre os Enigmas das Pandemias, descobri textos do Nelson Rodrigues de quando ele vivenciou, ainda criança, a gripe espanhola no Rio de Janeiro. E essa frase dele me deixa muito encalacrada:


“De repente, passou a gripe. Com o fim da gripe as coisas não mais foram as mesmas. A peste deixara nos sobreviventes não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. Lembro-me de um vizinho perguntando: ‘Quem não morreu na Espanhola?’.”


Então, não quero me acostumar com isso que estamos vivendo. Tudo que estiver ao meu alcance para melhorar a minha realidade e dos que estão próximos a mim, vou fazer. Então como já dizia Darwin, é quem se adapta que sobrevive. Não temos outra escolha.


O que é mais difícil nos seus dias?

As noites são mais difíceis. Penso demais.


Depois de quase dois meses, onde você se encontra emocionalmente agora?

Emocionalmente instável haha sem mais - rindo de nervoso!


Como são suas manhãs, tardes e noites?

Minhas manhãs são show, a parte mais legal do dia. Eu acordo umas 8h, faço meu ritual de beleza matinal, vou pra cozinhar fazer meu café da manhã, leio os principais jornais do Brasil e do mundo, faço uma yoga, funcional ou, se estou mais preguiçosa, só alongo meu corpo e começo a trabalhar.


A tarde tem sido corrida de trabalho, onde o bicho pega aqui no computador, e eu intercalo com lavar alguma roupa e cozinhar meu almoço. Tenho almoçado umas 16h, antes eu assistia jornal na TV, agora vejo alguma série bem boba, no caso estou vendo Valeria, no Netflix, uma coisa meio Sex and The City só que passa na cidade de Madrid. Os espanhóis da série tem feito meu horário de almoço mais feliz…


As noites, sempre uma incógnita. Como disse antes, sempre são um drama. No começo eu fazia bastante Zoom com amigos, família etc. Mas agora ninguém aguenta mais. O “zoom fatigue” é real. Então eu me forço a fazer algo, tipo ver uma série, ler um livro, cozinhar, beber um vinho. Se eu fico sem fazer nada, minha mente voa, e as paranoias estão começando a aparecer. Na última sexta-feira, no entanto, rolou uma festa pelo Zoom com amigos que moram em NY, estão arrecadando para os brasileiros que estão lá sem trabalho e sem comida, e foi tão maravilhoso, parecia uma festa de verdade. Até paquera por lá rolou. Isso foi um highlight bom. Só minha vizinha que não ficou muito feliz, rs.


Mas não estou me pressionando pra seguir uma rotina muito rígida além disso. Tem dias que eu trabalho com uma amiga pelo FaceTime, ficamos lá as duas, quietas, respondendo e-mails, cada uma da sua casa, porém não estamos sozinhas. Tem dias que acendo velas de manhã, faço meus rituais de oração na madrugada, danço pela sala à tarde, como brigadeiro às 10h da manhã, escrevo textos de trabalho à meia-noite, enfim…tudo que faz sentido no momento, e de novo, sem me cobrar tanto.


Você consegue achar alguma lógica e estabilidade em certos momentos?

Eu consigo. E depois não consigo. Eu transito pela magia e pela ciência. Pela racional e pelo irracional. Eu olho pra história, pra dados, para fatos, e depois eu olho o mundo espiritual, o místico, o oculto. Então eu vivo nessa dualidade o tempo todo. Dado ao fato de eu ser do signo de Gêmeos com ascendente em Escorpião, entendo um pouco esse vai-e-vem de emoções, um mergulho entre a superfície e o profundo, que haja paciência pra lidar. Mas, se eu precisar te responder algo mais prático, haha, sim, eu vejo lógica e estabilidade nas minhas manhãs e, em como eu estou economizando dinheiro, comida e tempo pra mim.


Do que você mais sente falta?

Eu to sentindo falta de coisas materiais, que eu nem sabia que iria sentir falta. Eu sinto falta de uma casa um pouco mais aconchegante. Moro num apartamento super pequeno, que me mudei porque não sabia se ficava em SP ou voltava pra NY, estava bem confusa em 2018. Aí acabei ficando, e ficando, e ficando, e como nunca parava em casa, nunca parei pra olhar minha casa com mais carinho. Gosto da ideia libertadora de fechar tudo que tenho aqui e me mudar com duas malas pra Suécia, por exemplo, mas esse tipo de pensamento foi por água abaixo.


Agora, materialmente falando, olho para minhas necessidades. O que eu quero para ser feliz? Até esses dias, eu não tinha taça de vinho. Não dá pra ficar tomando vinho na caneca, mesmo que isso tenha virado hype nas reuniões de trabalho pelo Zoom.


É óbvio que sinto falta de pessoas, da minha família, amigos, de me aglomerar numa pistinha de dança. Mas, ficar pensando nisso me deixa mais saudosa e triste. Vamos voltar para as taças de vinho…


O que você acha que será diferente em si mesma quando a doença estiver controlada?

O controle com meus gastos e cozinhar em casa.


Você acredita que as pessoas que conhece serão transformadas?

Eu acredito. Espero que sim. Mas, não dá pra afirmar, né? Você só muda se quiser mudar, independente da pandemia ter acontecido ou não. Como dizia Elis Regina “se quiser mudar o mundo, comece com seu quintal”.





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