• Kanucha Barbosa

Entrevistando um repórter

Atualizado: Mai 28



Conheci Paulo Sampaio quando eu era uma repórter bem júnior no site Glamurama. Ele era amigo da minha chefe e repórter especial da revista Joyce Pascowitch. Quando eu via os dois sentados à mesa ao lado no horário do almoço, no restaurante que frequentávamos, me sentia como uma criança olhando para os adultos. E isso nada tem a ver com idade, mas com uma admiração profissional imensa. Paulo, que é carioca, se mudou para São Paulo aos 23 anos em 1986, para ser revisor do jornal O Estado de S. Paulo (Estadão). Em seu currículo, estão também veículos como Veja, Elle e Folha de S. Paulo, onde ficou por 15 anos.

Com o passar do tempo, fui promovida, até me tornar editora geral da revista JP, onde ele continuava fazendo suas reportagens especiais. No começo, quando editava os textos do Paulo, não me achava nem um pouco digna disso. Na verdade, não sei se me acostumei com esse fato até sair da revista.

Paulo é um jornalista raro em minha opinião. Ao longo dos anos, no impresso, a gente começa a entender que um bom profissional não é aquele que apenas escreve bem, mas que tem uma voz. O Paulo tem voz própria. Tem estilo próprio. E o melhor, é aliado da ironia, o que o torna mais incomum ainda.

Atualmente, ele é autor de um blog homônimo no Uol. Suas reportagens, que estão mensalmente entre as mais lidas do portal, falam sobre pessoas, sejam elas famosas ou anônimas, e seus comportamentos. Muitas vezes, Paulo faz duras críticas à sociedade (sobretudo à elite brasileira) por meio de seus textos e, muitas vezes, suas sutilezas não são compreendidas - principalmente, em tempos onde leitores não leem mais que um título e uma linha fina e já correm para as caixas de comentários para exporem suas opiniões (ou seu ódio).

No fim das contas, nos tornamos amigos. E até o começo da pandemia, almoçávamos todos os meses juntos, na companhia de outros amigos queridos, e eu não me sentia mais como uma criança (talvez, agora, me sinto adolescente). Quando o convidei para uma entrevista aqui no Sofia, ele me disse que odeia dar entrevistas, mas que abriria uma exceção para mim, o que me deixou imensamente feliz. Ele, como muitos jornalistas, continua saindo às ruas para fazer seu trabalho. Em tempos onde a imprensa passa por uma terrível perseguição, gostaria de agradecê-lo por resistir.



Crédito da foto: Lucas Lima


Como está a sua rotina?

Está ruim pra todo mundo. Mas diante de tudo o que eu assisto, acho que posso dizer que não sou a pessoa mais prejudicada do mundo. Minha rotina mudou pouco. Moro sozinho, em um espaço amplo, e já trabalho em casa há 3 anos. Então, não precisei lidar com a presença inusual de uma família 24 horas por dia. Por mais que eu gostasse de todos, acho que rolaria um desgaste grande.

Os assuntos de suas reportagens estão apenas focados na pandemia? Quais são eles?

Não tem como fugir dessa pauta. De maneira geral, qualquer pauta precisa estar linkada com pandemia ou desgoverno (Bolsonaro).

Qual foi a matéria que mais teve repercussão durante a pandemia?

Não tenho acesso à audiência, minha única referência são os comentários. Então, eu acho que foi a de uma advogada que tem 500 pares de sapatos e não sabe onde usá-los na quarentena. Houve 1.200 comentários.

Qual delas se sentiu mais exposto ao vírus ao fazê-la?

As que eu precisei ir para a rua. Estive em um protesto na Paulista, de pessoas que são contra o isolamento social e pedem o impeachment do João Dória. Poucos estavam de máscara. Fui também a Cracolândia, para acompanhar uma distribuição de marmitas, e ao Grajaú, para ver como os habitantes do bairro mais populoso e violento de SP estão reagindo à pandemia e à quarentena.

Você sente medo de pegar o coronavírus?

Eu sei que é politicamente incorreto dizer, mas não.

Do que você mais sente falta?

De ir a um café com amigos, sentar e conversar. E de almoçar com os queridos da revista (da Joyce) e do Glamurama, você incluída.

Quais são seus outros medos em relação à pandemia?

Não tenho medo. Acho apenas que o mundo atravessa um momento de mudança grande e que, independentemente da covid-19, muita gente não vai resistir ao que vem por aí. As "Marias Antonietas" acreditam que até o fim do ano, no máximo, os shoppings reabrem as portas e volta tudo ao que era. Não voltaremos nunca mais a ser o que fomos. Milhões de pessoas desaparecerão nessa fenda que se abriu na história do Planeta. A maioria, sem saber por quê. Vão sobreviver os que conseguiram enfrentar os próprios demônios. Estamos sendo colocados à prova.

Como você se sente quando o presidente/seguidores do presidente fazem ataques aos jornalistas?

Era previsível. São pessoas que não estão acostumadas a raciocinar, só a mandar ou seguir cegamente quem manda. Em relação às atitudes impensadas do presidente, aos desmandos dele, alguém tinha de ser responsabilizado. Só que, aos poucos, por falta total de habilidade, o Bolsonaro começa a ser associado a tudo de ruim que a covid-19 trouxe. É horrível pensar isso, mas ele poderia aproveitar o enorme capital político que a pandemia oferece, como fazem os governadores, e no entanto não muda o discurso. Quanto mais ataca os outros, mais aumenta as chances deles em 2022.

O que você faz em casa para manter a sanidade?

Quem disse que eu mantenho a sanidade?

Você será uma pessoa diferente depois que o vírus estiver controlado? Seja por uma vacina ou um remédio?

Acho que o mundo será diferente. E que eu vou ter de pensar seriamente se quero fazer parte dele.

Acha que a sociedade em geral será diferente?

Acredito que a forma de as pessoas se relacionarem pode mudar muito. Veja a quantidade de descobertas que a gente fez em dois meses e pouco. Os donos do lugar onde eu trabalho, por exemplo, devem estar se perguntando porque mantiveram por tantos anos uma estrutura física, cara, se todos podiam trabalhar em casa, virtualmente.

Você faz muitas matérias sobre pessoas da elite econômica, você acha que ela será diferente no mundo pós-pandemia?

Os ricos de países subdesenvolvidos, como os que a gente vê no Brasil, vão continuar comprando 100 pares de sapatos, ou acumulando dinheiro que nunca conseguirão gastar, sem querer entender porque fazem isso. Mas eu acho que já há uma percepção, por parte daqueles que chamo de futuros sobreviventes, de que a palavra "desperdício" só será usada em estudos antropológicos sobre o passado. A época dos carrões, dos bolsões, dos peitões, dos dentões, do cabelão será lembrada como um período de transe que a humanidade viveu, algo absolutamente inconcebível.


Isso não significa que os exibidos desaparecerão. O ser humano vai continuar existindo, com suas peculiaridades. Resta saber a referência que eles usarão para se destacar. Eu arriscaria dizer que, no fim, a gente não vai conseguir se livrar de nós mesmos.


44 visualizações
 

ENTRE EM CONTATO

 

©2018 by Projeto Sofia. Proudly created with Wix.com