• Kanucha Barbosa

Minha vida, minhas regras

No começo do ano, fiz algumas reportagens para a Revista Carbono. Uma delas foi justamente sobre home office e flexibilidade na rotina do trabalho. Uma tendência que já vinha acontecendo e que, com a pandemia, trouxe muita reflexão.


Para quem se interessar, segue a matéria na íntegra!



Ter controle sobre a própria rotina é coisa séria para muitos millennials, que já não colocam status e dinheiro no topo da lista de prioridades


Por Kanucha Barbosa para a Carbono Uomo

Imagem: Projeto arquitetônico Sub Estúdio (@sub_estudio) e foto do Fran Parente (@franparente)


Alguns anos de experiência no mercado financeiro foram o suficiente para a empresária Júlia Silveira procurar uma alternativa ao formato “9h às 19h”, sua carga horária com zero flexibilidade. Aos 34 anos, Júlia hoje é sócia da papelaria Estúdio Papel. O trabalho segue constante, no entanto, a rotina é maleável: Júlia passa as manhãs em casa, sempre on-line e resolvendo urgências pelo celular, e às 11h, segue para o escritório. Às 17h, ela se despede da equipe e volta a tempo do banho da filha Ana, 1 ano. “Não poder esticar um dia para sair mais cedo no outro, deixar de ir a algum compromisso pessoal à tarde quando estava tranquila de tarefas, isso tudo me incomodava muito. Por mais que hoje eu fique bastante no escritório, consigo dar umas escapadas quando preciso sem grandes problemas”, afirma.

Antes de abrir um estúdio que cria estampas para importantes marcas nacionais, a designer Maria Ruth Jobim fez estágios em um órgão público e em um estúdio de fotografia. Nesses trabalhos, cumpria jornadas que dificilmente a permitiriam tirar uma manhã para visitar uma exposição de arte à procura de inspiração, por exemplo. Aos 26 anos, ela divide a rotina profissional entre home office e uma sala comercial que alugou a 20 minutos de caminhada de casa. “O escritório me trouxe um ambiente propenso a estabelecer um bom fluxo de trabalho, sem interrupções que teria em casa, mas não preciso estar lá todos os dias. Algumas vezes, quando tenho que criar algo, vou a um museu, por exemplo, para abrir novos horizontes e pensar fora da caixa. É importante mudar a dinâmica para poder fluir o pensamento”, conta.

Além de millennials (ou geração Y, nascida entre 1980 e 2000), as profissionais citadas nesta reportagem têm algo em comum: antes da guinada na carreira, desejavam ter o mínimo de controle sobre seu tempo, a preciosa flexibilidade. “Imprevistos acontecem. Quando somos amarrados a um emprego zero flexível, algo que poderia ser muito simples de resolver pode se tornar um bicho de sete cabeças”, diz Maria Ruth.


DANDO O TOM

Em 2020, a geração de Júlia e Maria Ruth está prestes a dominar mais da metade do mercado. A empresa de consultoria e auditoria PwC Brasil afirma que millennials irão compor mais de 50% da força de trabalho ainda neste ano. Sílvia Martins, gerente sênior da PwC, frisa a importância de as empresas se adaptarem às demandas desse grupo, entre elas a flexibilidade, para que não ocorra perda de talentos. “Já tivemos clientes que acabaram reduzindo espaços físicos, pois perceberam que a produtividade de seus funcionários caía por causa do grande tempo perdido em trânsito”, conta. A própria PwC, por exemplo, tem o programa FlexMenu, em que os empregados podem escolher o melhor período para cumprir sua jornada diária, reorganizar a agenda com esquema de compensação de horas e trabalhar remotamente até duas vezes por semana – o que impacta positivamente no engajamento dos profissionais.

Julia Curan, consultora do bureau de tendências WGSN Brasil, também reconhece a urgência de entender as prioridades dos millennials e como essa geração está remodelando o futuro. “Eles enfatizam as necessidades pessoais e esperam ambientes de trabalho dinâmicos. A possibilidade de planejar a própria vida profissional é essencial para que atinjam a autorrealização”, afirma a consultora. Em muitos casos pelo mundo, a resposta deste grupo à falta de uma cultura empresarial que esteja de acordo com suas exigências foi o rompimento. De acordo com o estudo liderado pelo WGSN em parceria com o LinkedIn “O Futuro do Trabalho”, os millennials transformaram o estilo de vida autônomo em uma de suas maiores marcas. O estudo ainda destaca que, em 2020, 40% dos trabalhadores americanos serão independentes (freelancers).


NON-STOP

Se a tecnologia trouxe asas aos millennials, ela também é mensageira de alguns problemas. A conectividade constante contribui para a ansiedade, uma vez que os Y nunca conseguem se desligar totalmente. Talvez venha daí essa busca por momentos de escape, mesmo que em horário comercial, já que a linha que divide vida pessoal e profissional está cada vez mais apagada. “Millennials estão abandonando os indicadores tradicionais do sucesso, mudando o foco para novas noções de realização. Diferentemente da geração anterior, para eles, viver com um propósito em vez de correr atrás de sucesso está levando a um resgate dos prazeres básicos, como pequenos rituais cotidianos”, aponta Julia Curan.

O advogado Thomaz Pacheco, 33 anos, é um exemplo. Ele, que já foi VP de um departamento de um grande banco sem horário para nada relacionado à vida pessoal – seus turnos iam das 9h às 22h, inclusive aos fins de semana –, hoje faz questão de respeitar momentos como ginástica, terapia, refeições e encontros com amigos e família, deixando o celular longe ou no modo avião. “Do contrário, fica muito difícil de levar.”

A mudança começou há três anos, quando Thomaz deixou o cargo. Hoje é sócio de uma plataforma de investimento recém-criada com foco em educação e produtividade. Depois de um tempo trabalhando no esquema home office, Thomaz optou por um coworking para organizar melhor a distinção entre casa/trabalho. “Agora tenho o poder de manejar os horários e os espaços da maneira mais conveniente e eficiente para mim. Lógico que existe uma expectativa que isso seja usado com responsabilidade, mas trabalho dentro de uma cultura de confiança e respeito total ao equilíbrio de cada um”, comenta. “Não vemos problema algum em uma pessoa do time trabalhar eventualmente da praia ou do interior, ou mesmo no horário que fizer sentido para ela, desde que esteja cumprindo os objetivos e metas traçados”, completa.


FOLHA DE PAGAMENTO

Diferentemente dos pais, os millennials não apreciam com tanto vigor a ideia de estabilidade financeira atrelada ao modelo tradicional. O estudo “O Futuro do Trabalho” afirma que 45% deles escolhem a flexibilidade em relação ao pagamento. No caso de Maria Ruth, que abriu o próprio negócio, a ausência de um salário certeiro não a impede de buscar mais autonomia em relação ao seu tempo. “A instabilidade me incomoda, mas também funciona como um impulso, me faz querer crescer”. Cada vez mais, o encanto da vida nômade segue se espalhando. Segundo um relatório de 2018 da FlexJobs, empresa americana especializada em empregos remotos e flexíveis, 40% dos trabalhadores remotos ganham mais de US$ 50 mil, e 18% deles, acima de US$ 100 mil, anualmente – a média salarial dos Estados Unidos é de US$ 46.600 ao ano. “O trabalho remoto se torna uma escolha atraente para millennials com agendas apertadas e bolsos vazios”, coloca a consultora Julia Curan.

Mesmo com dúvidas e anseios, quem vive uma vida com um roteiro mais maleável dificilmente se arrepende. “Quando saí do banco, fiquei com medo – e fico até hoje –, mas acho que vale a pena. Não me vejo mais num lugar quadrado por nada neste mundo. Eu detestava ficar presa na minha mesa pela obrigação de cumprir um horário”, conta Júlia Silveira.

E qual será a situação do mercado de trabalho que Ana, a filhinha de 1 ano de Júlia, encontrará quando começar a pensar em uma carreira? Se for moldada pela geração Z, que contempla os nascidos entre 1990 e 2010, deve seguir os valores de trabalho da geração Y – como flexibilidade, empatia e equilíbrio – que se potencializam com a geração Z, e levar à risca a cultura de aprendizado constante e o questionamento ao modelo tradicional do capitalismo serão fatores cruciais para o futuro do trabalho. “A economia compartilhada, por exemplo, chegou para ficar e segue promovendo mudanças no status quo. Com uma estimativa de crescimento global de US$ 335 bilhões até 2025, esse segmento tem tudo para causar ainda mais impacto no modelo econômico centrado nas grandes corporações – e ele será conduzido principalmente pela geração Z”, aposta a consultora Júlia Curan. Quem viver verá…


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