• Kanucha Barbosa

Notícias da Cidade do México

Atualizado: Jun 10



Há um ano e meio, a colombiana Laura Arteaga aceitou do dia para a noite (literalmente) uma proposta repentina da agência de comunicação brasileira que trabalha para liderar a área de negócios da filial mexicana. Com o marido brasileiro, que é empresário e consegue trabalhar remotamente, e seu cachorrinho, se mudou de São Paulo, onde morou boa parte de sua vida, para a Cidade do México.


Em pouco tempo, Laura já havia alugado um gostoso apartamento na Condesa, bairro arborizado com construções baixas e um quê de interior, como ela define. "Todos os dias, tem o cara que passa vendendo abacates, a senhora que compra colchões e materiais usados, o homem que passa de bicicleta vendendo tamales, o apito do vendedor de batata doce... Enfim, uma sinfonia ao ar livre".


Sobre viver em outro país, ela não se intimida: "Já morei fora antes. Desde pequena me mudei bastante com a minha família por causa do trabalho do meu pai, que sempre trabalhou em multinacionais, então não foi difícil me adaptar ao novo cenário".


No entanto, é claro, Laura não esperava passar por um período de quarentena, ainda mais longe da família, que ficou toda no Brasil. Soma-se ao fato de atuar em uma área que está sofrendo bastante com a crise econômica que caminha ao lado da pandemia, a da publicidade, os desafios são grandes.


A seguir, ela conta um pouco sobre como está encarando o presente.


Como estava sua rotina pré-pandemia?

Antes da quarentena, minha rotina era sair de bicicleta por volta das 6h30 para academia e, depois, voltava pra casa, me arrumava e ia para a agência, que fica perto da minha casa (graças a Deus, porque o transito é mesmo infernal). Como o bairro é super gostoso e a gente sentia que estava “de férias” por não estar em São Paulo, saíamos para jantar quase todos os dias.

Você já fazia home office? Como era a dinâmica do escritório? Isso ajudou quando teve que adotar o isolamento?

Não fazia home office. Tinha feito uma vez, há muitos anos, quando morava com meus pais, e não gostei da experiência naquela época. Gosto muito de ter contato com gente, de trocar ideias, sou muito curiosa, então gosto de aprender com os outros.


Achei que fosse odiar o home office de novo, mas estou curtindo bastante. Sou muito acelerada e acabo querendo fazer mil coisas ao mesmo tempo. Antes eu ia à academia escutando podcast e lia notícias entre um exercício e outro, tomava café da manhã em dois minutos, entrava no Uber e já respondia e-mails... Hoje sinto que tenho mais foco e sou bastante produtiva, embora ainda sinta falta da troca presencial com colegas.

Como foi o processo de quarentena na Cidade do México?

A postura do governo foi muito ruim no início. O Presidente AMLO debochava do vírus, não deu a importância que deveria ter dado. Mas, não teve jeito, vendo tudo o que estava acontecendo no resto do mundo e com os números de casos subindo exponencialmente, o governo federal acabou tomando medidas mais drásticas. Nunca tivemos lockdown, no entanto. No começo, o setor privado adotou o home office e o governo federal, depois do primeiro momento de deboche, acabou pedindo para as pessoas ficarem em casa. As escolas públicas fecharam, transporte público também foi reduzido.


O que me surpreendeu é que, pelo menos no bairro onde moramos e nos bairros próximos, desde o comecinho da pandemia, as pessoas respeitaram o isolamento por conta própria e, ao saírem de casa, já usavam máscaras mesmo sem ser obrigatório (o que foi decretado depois de um tempo). Agora, estamos aos poucos abrindo os negócios essenciais, começando pelas cidades que têm mostrado diminuição nos contágios. Se aumentar de novo, o governo já deixou claro que voltará com a campanha de isolamento mais rigoroso.


Notas do Sofia:

- Em 9/6/20, o México registrou 14.053 mortes, enquanto o Brasil registrou 37.359. O dado brasileiro é do consórcio de veículos de imprensa formado nesta semana.


- Andrés Manuel López Obrador, o presidente do México, é chamado pela sigla de suas iniciais e é filiado ao Partido da Revolução Democrática - PRD, fundado no fim dos anos 1980 com a fusão de vários partidos pequenos de esquerda.



O que você sentiu nos primeiros dias da pandemia?

Nos primeiros dias, semanas, foi uma mistura de emoções. Eu queria ser otimista para manter meu time otimista, mas tinha momentos pessimistas também, pela incerteza do tempo que tudo isso vai durar.


Aos poucos, profissionalmente falando, fui me acostumando ao “novo normal” e vendo que a questão de não estar trabalhando presencialmente, na minha opinião, não impactou de forma negativa. O difícil é que o setor que eu trabalho, de publicidade/comunicação, foi muito impactado. Tivemos que mudar drasticamente a maneira de pensar e adaptar os projetos que venderíamos. Foi um pouco desesperador, saímos fazendo vários projetos proativos, mas sem muito peso por trás. Hoje, já traçamos um novo caminho e uma estratégia muito mais forte, uma maneira de não ser uma agência que está pontualmente atendendo o pedido do cliente. Estamos pensando em conjunto com eles, ajudando-os a entender o novo comportamento do consumidor e como reagir a isso a partir de um ponto de vista de inovação.

Você sente diferença entre os brasileiros e os mexicanos ao lidar com a pandemia?

Nós, "brasileiros" no México, reagimos muito mais cedo do que os mexicanos, porque temos contato direto com o que está acontecendo no Brasil, onde vírus estourou antes. Tanto que começamos o home office junto com o Brasil, nos adiantamos duas semanas em relação às empresas daqui. Apesar de ver as pessoas respeitando o distanciamento social, conversando com mexicanos, sinto que eles não estão tão preocupados quanto os brasileiros. Mas, é claro que não posso generalizar, porque, mesmo morando aqui, fico mais ligada ao que acontece no Brasil.

Você acha que o universo da publicidade/comunicação vai sofrer mudanças profundas com a pandemia?

Já sofreu! As empresas que não usarem esse momento para reagir e entender as novas necessidades do consumidor não vão sobreviver. Não dá para ficar parado, tomar esse tempo para enxugar custos e esperar passar.

Como está processando com tudo isso atualmente?

Depende do dia, hahaha. Tem dias que eu vejo bons resultados no trabalho e isso dá um gás incrível, mas é claro que tem os dias com mais obstáculos e me sinto bem frustrada.

Você acha que, por estar afastada dos amigos e familiares há algum tempo, a questão da saudade por conta do isolamento fica mais fácil?

Sem dúvida! E agora parece que todo mundo quer se falar muito mais, os encontros por FaceTime ou Zoom ficaram mais frequentes e voltamos a participar de tudo! Tem aniversário com bandinha no Zoom, tem noite de jogos com a família, brincadeira de esconde-esconde com boneca com as sobrinhas por FaceTime...


Você tem vontade de estar aqui ao lado deles?

Muita. No começo estava mais fácil, mas agora a minha família se juntou para fazer o isolamento em nossa casa no Sul, e a do meu marido também está toda unida, e eu queria muito, muito poder estar lá com eles. Bateu saudade de tomar café da manhã com a mesa cheia, brincar todas as noites com meus sobrinhos e sobrinhas...

Você tem alguma perspectiva de voltar para o Brasil atualmente?

O combinado sempre foi voltar uma vez por ano, além de Natal/Réveillon. A gente ia voltar em setembro, mas agora não sei mais se vai dar. Vai depender muito da situação dos voos, do trabalho, etc.

Quanto tudo isso acabar, você acha que será uma pessoa diferente? Mudou algo na sua visão de mundo em geral?

O que a gente estava vivendo antes da pandemia acabou. Hoje, não espero o dia que vão liberar uma vacina e a vida vai ser o que era antes, já estou vivendo uma realidade diferente. A empresa onde trabalho teve que se reinventar, a maneira como eu prospectava novos negócios mudou, a maneira de eu encarar minha rotina mudou. Não adianta fazer 7 coisas ao mesmo tempo, prefiro fazer menos com mais qualidade.


Sempre gostamos de planejar viagens de férias e agora estamos pensando em novos roteiros, algo mais ao ar livre, mais isolado. Antes procurávamos por lugares já pensando em restaurantes, bares... Hoje estou com vontade de alugar uma casa com amigos em um lugar paradisíaco, rodeado por natureza, para cozinharmos juntos e aproveitar para ficar perto um do outro.












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