• Kanucha Barbosa

Notícias da França

Atualizado: Jul 29

Há quatro anos, a jornalista Carolina Melo abandonou seu trabalho na editoria de saúde da revista Veja, em São Paulo, se casou com um homem francês e foi tocar uma loja/bar de queijos e vinhos em Rennes, na região da Bretanha. No ano seguinte, nasceu Lila e, em 2019, veio Louis, que ainda não completou um ano de idade. Quando falei com Carol, queria saber mais sobre como foi a experiência de passar pela pandemia tão longe de seu país de origem e, apesar das diferenças da postura do governo por lá, a verdade é que todos passamos por dificuldades que nunca imaginamos na vida. Abaixo, um pouco da experiência dela e de sua família.





Quais foram as suas primeiras impressões e das pessoas ao seu redor sobre as notícias do coronavírus na França quando a pandemia foi decretada, em março?

Eu era jornalista especializada em saúde no Brasil, então o assunto já estava no meu radar desde dezembro. Estava monitorando isso antes de todo mundo falar sobre a doença - e ficava um pouco desesperada vendo a tranquilidade do francês em relação a tudo. Um dia antes do confinamento ser anunciado, estava todo mundo em bares e restaurantes. No dia que o confinamento foi anunciado, eu fiquei aliviada, pois só assim sabia que os franceses iriam de fato se isolar.


Como foi o processo de lockdown na sua cidade?

A França inteira teve um lockdown, independente de algumas regiões serem menos atingidas do que outras. Foi um confinamento extremamente rígido, com regras bem estabelecidas. Só se podia sair de casa para o essencial, como comprar alimentos, durante no máximo uma hora por dia e numa distancia máxima de um raio de 1 km da residência. Para sair de casa, era preciso preencher um formulário do governo com nossos dados pessoais e marcar a hora de saída. Esse papel era essencial pois havia monitoramento da polícia nas ruas e ele comprovaria se nossa justificativa de saída de casa era válida. Os profissionais que continuaram trabalhando durante a pandemia também precisavam sair de casa com esse documento.


Em que a quarentena afetou a sua família? Como ficou o negócio da família?

Ficamos extremamente unidos. Criamos uma rotina e algumas regras, como, por exemplo, não passar o dia de pijama, exceto aos domingos, rs.

Eu passava aspirador, botava roupa pra lavar, fiquei em dia com as tarefas domésticas que normalmente se acumulam aqui em casa. Pra minha filha de 3 anos, que deixou de ir à escola, foi um pouco mais complicado e tivemos que pensar em atividades pra ela dentro de casa, principalmente porque ela ainda exige muito a nossa presença pra brincar e nem sempre estávamos disponíveis. Ela também teve a rotina do sono alterada, deixou de dar os cochilos à tarde e passou a dormir muito tarde à noite. Mas também passamos muito tempo juntos cozinhando e brincando.


No mês de abril, os dias estavam lindos com a chegada da primavera, o tipo de dia que o francês espera o inverno todo passar pra poder sair de casa e aproveitar. A gente tem uma varanda bem pequena, que só da pra ficar em pé. Então, colocávamos uma toalha no chão da sala, abríamos as portas da varanda e ficávamos deitados com roupa de praia tomando sol. Também desenvolvemos o hábito de aplaudir, todos os dias às 20h, os profissionais da saúde juntamente aos vizinhos de prédio e assim rolava uma interação com os vizinhos.


Sobre o negócio da família, nosso bar podia ter ficado aberto, pois é categorizado como comércio de alimentos, mas decidimos não abrir porque logo no início não havia máscara e álcool gel para todos. Preferimos fechar e doar os produtos perecíveis pra cruz vermelha. Tivemos auxílio do governo para nos sustentarmos durante esse período, assim como todos os outros comércios e empresas que fecharam.


Quando você sentiu que as coisas estavam melhorando por aí?

Eu acompanhava os relatórios oficiais do governo o tempo todo e vi quando a curva começou a baixar todos os dias.


Como você descreve o cenário atual da sua cidade?

As pessoas estão vivendo normalmente e às vezes isso é angustiante, pois sabemos que o vírus continua circulando. Vejo as pessoas se cumprimentando com beijinho, dando abraço. Nem todos usam máscara pois (ainda) não e obrigatório - mas vai ser em breve. Ao mesmo tempo, dá pra ver que muitos comércios (nem todos) estão bem exigentes com as regras.


E como, na sua percepção, você compara o processo de quarentena aí e no Brasil, quando você lê notícias sobre aqui ou fala com a sua família?

Eu acho que o que aconteceu no Brasil não foi uma quarentena. O que eu vi muitos conhecidos fazendo, como se encontrar com familiares na garagem do prédio, de máscara, com distanciamento, a gente não podia fazer. A gente simplesmente não podia sair de casa se não fosse pra algo essencial, com monitoramento policial, risco de multa e prisão. Sinto que no Brasil cada um fez de acordo com sua consciência, na falta de regras mais claras.


Você tinha planos de vir para o Brasil, que foram postergados, acredito. Imagino que vocês estão sem previsão de vir para cá… Como é não poder estar perto dos seus pais e familiares neste momento?

Era pra termos passado férias no Brasil agora em junho e foi frustrante não poder ver minha família e amigos depois de um ano e meio. Como eu estava grávida no ano passado, demorei mais tempo pra marcar uma viagem. E finalmente quando marquei aconteceu isso. Mas, honestamente, desde o inicio da pandemia o cenário sanitário sempre foi prioridade pra mim, eu consigo entender perfeitamente os motivos pelos quais essa viagem não pode acontecer, assim como tantas outras pessoas também tiveram de se adaptar e ajustar as expectativas. Tenho amigas que moram no exterior e tiveram bebê sem poder ter a presença da família, por conta das fronteiras fechadas.


Você acredita que os franceses mudaram de comportamento em relação ao modo de vida? Acredita que existirão mudanças daqui para frente?

Acredito que o francês está aproveitando o verão o máximo que pode, ciente de que a pandemia não acabou. A máscara é um acessório mal utilizado aqui. Usam embaixo do nariz, na testa, na orelha...

Os idosos, que sempre tiveram uma vida muito ativa aqui, continuam saindo de casa tranquilamente pra comprar pão na padaria, alguns sem máscara...


E você em especial? Como encara toda essa situação que estamos vivendo?

Esse período está sendo importante pra gente rever muita coisa. A prioridade na saúde e nos nossos hábitos, principalmente. Além da importância de parar um pouco e respirar, sair do piloto automático.


O que você espera em relação ao futuro?

UMA VACINA! E políticos que priorizem a saúde pública e a vida das pessoas.


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