• Kanucha Barbosa

Relatos de uma manifestação

A última semana deu uma sacudida no mundo. O nome do homem negro norte-americano George Floyd, que foi assassinado por um policial branco, entrou para a história.


No Brasil, temos muitos nomes como o de Floyd. Nomes de pessoas negras que foram apagados pela violência policial e pelo racismo. Até terça passada, quando milhões de pessoas inundaram as redes com posts acompanhados das hashtags #vidasnegrassimportam e #blacklivesmatter, o nome divulgado pela mídia e pelas redes sociais foi o de um menino de 14 anos, assassinado em casa pela polícia carioca. João Pedro. E, durante a semana, mais um baque. O nome Miguel foi para as manchetes. De apenas 5 anos, o menino morreu enquanto estava sob a responsabilidade da patroa da mãe dele, Mirtes Renata, que passeava com os cachorros da empregadora (Sari Corte Real).


Durante a semana, houve então um chamado para atos antirracistas pelo Brasil marcados para o domingo, 7/6. Em São Paulo, este ato seria no Largo da Batata. No entanto, na sexta-feira, viralizou um vídeo do cantor Emicida, enumerando motivos que não o levariam para as ruas.


Mesmo com a desistência de várias pessoas diante das ponderações de Emicida, o designer Jairo Malta, de 32 anos, foi ao protesto. E contou ao Projeto Sofia sobre como se sentiu antes e durante os atos.




"'A mais perigosa criação do mundo, em qualquer sociedade, é um homem sem nada a perder'. Pensei muito nessa frase do Malcom X na última semana.


Veja bem... eu tenho muito a perder. Emprego, família, amigos. Mas, observando os últimos acontecimentos que estamos vivendo, me veio uma dúvida, e com ela uma grande indignação comigo mesmo. "E agora, Jairo, o que você vai fazer?" Ok, estamos em uma pandemia, mais de 1000 pessoas estão morrendo diariamente, sair de casa e se aglomerar é um grande problema. Só que a periferia está morrendo diariamente e, no nosso caso, não só de coronavírus. O povo preto tem sido morto dentro de casa, assassinado. João Pedro, de 14 anos, estava no quintal de casa, em quarentena, e foi assassinado pela polícia e não socorrido. Miguel, de 5 anos, foi jogado do prédio, porque a mãe estava passeando com o cachorro da patroa no meio da quarentena. Esses são os casos que ficamos sabendo porque foram expostos... Quantos outros ignoramos diariamente? A polícia do Rio, na última semana, por exemplo, foi impedida de fazer operações durante a pandemia, ou seja, estão proibidos de matar pretos durante a pandemia. Por isso repito, o negros têm morrido dentro de casa e não estão podendo escolher como.


Pensando em tudo isso e motivado pelas manifestações das torcidas organizadas, comecei a apoiar e chamar amigos para a manifestação do último domingo, 7/6. A maioria dos meus amigos, engajados ou não, era a favor e dizia que ia à manifestação, já que assim como eu, também estavam indignados com o que estamos vivenciando no país. Até que, na última sexta-feira, tomamos um banho de água fria após um vídeo feito pelo cantor Emicida. Ele falou sobre os motivos que o levariam a não ir para a rua neste momento. Para mim, o problema não era o raciocínio dele sobre as mortes, sobre quem está morrendo. O que mais me deixou triste foi a forma como ele falou do movimento, sobre não ser organizado ao ver dele. Mais ainda, não deu nem tempo de as pessoas pensarem com calma se iriam ou não. Por ter sido tão em cima, não houve espaço para um debate - além de não haver uma proposta alternativa à organização e ao ato em si. Como Emicida é uma pessoa eloquente e representativa, muitas das pessoas que antes estavam dispostas a ir, mudaram de ideia.


Quase desisti de ir, sim. Mas no domingo de manhã, respondi sobre a minha indignação para mim mesmo. Me troquei, peguei 3 máscaras, minha câmera e fui. Quando cheguei no Largo da Batata, foi incrível. Toda tristeza e insegurança que eu estava sentindo se tornaram alegria e euforia, quase que instantaneamente. Vi muitos profissionais da saúde distribuindo álcool em gel, máscaras e orientando o distanciamento sempre. As palavras de ordem se misturavam com os fogos, música e a imagem do povo preto pedindo mudança, respeito e deixando audível que #VidasNegrasImportam. Vi a bandeira da democracia corintiana sendo balançada por São Paulinos e Palmeirenses. Pessoas emocionadas e revoltadas. Foi realmente um momento histórico. Só isso já tinha me deixado com a sensação de dever cumprido.


Por ser de periferia, minha vida não é pautada por livros e, sim, por discos. Então, posso dizer a que cereja do bolo foi ter visto o Mano Brown apoiando o movimento. O mais especial pra mim foi que ninguém tinha o reconhecido, claro, de boné e máscara. Como fã de Racionais desde a infância, pensei que não tinha como não ser ele. Tomei coragem e fui até ele, que brincou, falando que eu estava olhando de cara feia em sua direção. Lembrou de mim de outros rolês e falou para eu tirar foto de longe, para não causar tumulto. Aquele momento foi o ponto final do fim de semana, a foto viralizou, o fotógrafo João Wainer apareceu para tirar a foto oficial e todos os que foram e não foram têm agora mais tempo para pensar de que lado está. Foi um grande dia."







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