• Kanucha Barbosa

Um papo sobre cura




"Eu ajudo mulheres a se curarem, ressignificando dores e bloqueios emocionais através de um olhar leve de#autoconhecimento". Essa é a frase da descrição do perfil @pequenosrituais, da terapeuta, artista e diretora de arte Carol Almeida, de 33 anos. E só de dar uma volta por seu feed, já dá uma vontade enorme de entrar numa jornada introspectiva ao lado dela.


"O Pequenos Rituais nasceu em 2016, numa época em que eu estava passando por um processo abusivo no trabalho e, ao mesmo tempo, um despertar espiritual bastante intenso. Em 2015, tive um câncer de ovário que abriu portas pra que eu me aprofundar cada vez mais na espiritualidade e autoconhecimento. E o Pequenos Rituais surgiu da vontade de compartilhar tudo o que eu vinha estudando a tanto tempo. Além disso, era uma forma de exercitar a criatividade criando esses rituais de autoconhecimento e bem estar", conta Carol.


Formada em tarô terapêutico, Magnified Healing, Reiki, apometria com cristais, magia natural, aromaterapia, radiesteia e Thetahealing, atualmente ela se divide entre a área de comunicação institucional da Natura e em atender mulheres que estão em busca de algum tipo de cura. Aqui, ela divide com a gente reflexões sobre seu trabalho e nos conta ainda um pouco de si mesma:

Como começou a sua jornada de autoconhecimento?

Eu acho que já nasci uma buscadora, e respostas simples sobre como o mundo funciona nunca me interessaram. O contexto de ser uma criança negra, filha de empregada doméstica, sem uma estrutura familiar, mas que convivia e vivia em ambientes majoritariamente brancos me trouxe muitos questionamentos e incômodos. E após o falecimento do meu pai, aos 5 anos, eu fui levada pra terapia e eu nunca mais parei de fazer, entre indas e vindas já são 25 anos em processo de autoconhecimento. Aos 17 anos, eu decidi voltar pra terapia por vontade própria pela primeira vez, não porque minha mãe disse, ou a escola sugeriu, mas por mim. E daí eu entendi que o que mais me interessava desse processo de autoconhecimento era entender o motivo de eu ter algumas reações a certas situações, por que eu tinha alguns sentimentos, enfim, fui criando um verdadeiro banco de dados de como eu funciono, por que eu funciono assim e partir dessa consciência, pude ir desenvolvendo ferramentas pra agir de maneiras melhores e mais leves pra mim mesma e pro mundo ao meu redor. E não é só a terapia que te ajuda nisso, mas toda experiência que te traz algo novo, que te tira da zona de conforto, que faz você se vestir de uma outra forma, que te convida a conhecer pessoas diferentes de você... Pra mim viver é um eterno processo de se conhecer e se tornar infinito.

O que é cura para você?

A cura pode ser o desaparecimento de uma doença ou a diminuição de sintomas de algum desafio físico, mas também um perdão que você consegue direcionar a alguém que te machucou muito. Pode ser que você deixe de ter dívidas e consiga ser promovido no seu trabalho ou que simplesmente consiga se enxergar com mais compaixão. Cura pra mim é quando algo muda, quando alguma energia se move ou você ganha uma nova perspectiva sobre um desafio, trauma ou etc.

Você fala sobre a sua relação com o seu corpo nas redes. Como foi (ou é) o seu processo de aceitação e paz em relação à sua imagem?

É um processo. Eu ainda não cheguei lá, esse lugar de aceitação plena, nem tenho a pretensão de fingir que isso aconteceu. Ter um corpo bonito, pras mulheres, é um tipo de arma... e pra mulheres negras, às vezes, esse é um dos grandes recursos que você tem de passabilidade na vida, o que é muito cruel. Então, quando meu corpo mudou pra 25kg a mais, sofri muito. Mas, com certeza, eu ultrapassei um lugar de muita tristeza e frustração entendendo o tanto de pressão externa que eu tinha acreditado como verdade e também trazendo mais leveza pro meu olhar em relação a mim mesma. Nossos corpos são incríveis, eles nos sustentam, nos ajudam a estar nesse planeta. Como mulheres, ele nos protege, nos guarda. E pra mim, é um corpo que sobreviveu a um câncer, a diversas perdas de pessoas próximas, à depressão, às agressões do racismo... Enfim, é o recipiente pra minha alma e espírito e só por isso deve ser celebrado.


Além disso, a máxima que diz "finja até que pareça verdade" é algo que eu uso muito. Então quando eu estou me sentindo mal, eu emulo que estou me sentindo bem, coloco uma make, tiro umas fotos, coloco um brinco. Às vezes funciona e eu consigo mudar meu olhar, às vezes, não... Mas eu sempre consigo me enxergar de uma nova maneira e isso é uma pequena cura.

Por que é importante, para uma mulher, conviver em paz com a própria imagem?

A resposta rápida é porque vivemos num mundo que dá um livro de regras que diz o que as mulheres devem ou não fazer, podem ou não podem ser. Então, se você não viver em paz com você mesma, vai ficar muito fácil pro mundo te dizer quem você deve ser e, assim, sua individualidade e toda a potência do seu ser vai ser desperdiçada.


Fora isso, todo ser humano que nasce nesse planeta passa por um útero, somos as intermediárias entre espírito e matéria - e isso em diversos níveis: mesmo mulheres que não possuem útero, possuem a alma feminina que tem essa capacidade de nutrir, criar e descriar mundos internos e externos. Reconhecer isso, e nos reconectar com essa essência feminina, independente de como ela se expresse através de você, viver em paz com a sua imagem e com a maneira que você se coloca no mundo é trazer o nosso poder de volta pro nosso centro. E em posse desse poder, somos indestrutíveis.

Como está a sua rotina durante a quarentena?

Eu continuo trabalhando, sou editora de arte em comunicação institucional na Natura. Mas trabalhar de casa me possibilita acordar um pouco mais tarde, meditar por 15 minutos de manhã, tomar um café da manhã mais gostosinho. Além disso, com o silêncio de estar em casa só com o meu marido, tenho cozinhado mais, desenhado mais, ouvindo uns discos que fazia tempo que eu não escutava, com certeza estou mais introspectiva.

Quais foram as questões que mais vieram à tona para você neste período de pandemia?

Várias: o encontro com a nossa mortalidade, a certeza de que somos parte da Natureza e que um vírus pode, sim, nos afetar profundamente. Me fez pensar em quais são as relações que realmente importam e fazem sentido pra mim, na relação com a minha casa, que deixou de ser um lugar de passagem pra um lugar de nutrição e ninho. E por fim, como vamos ser nesse novo normal?

Isso desafiou o seu trabalho?

Não desafiou, não. Pelo contrário, acho que falo de um lugar de privilégio e sinto que consigo me dedicar mais ao meu trabalho na Natura e ao meu trabalho como terapeuta.


Do que você mais sente falta?

Da minha família, e de tomar sol, porque aqui em casa não tenho sacada, rs

O que você espera de si mesma quando houver uma vacina ou uma cura para a doença?

Eu espero a coragem de voltar a conviver com outras pessoas. Está muito confortável ficar em casa, protegida pelos meus privilégios, pontos de vista, crenças... E me sinto menos desgastada pela relação com pessoas que estão na polaridade oposta à minha, neste momento em que as trocas são quase agressivas.

O que você espera dos outros?

Espero que possamos nos respeitar mais, esse respeito que eu busco poder oferecer pros outros, espero receber. Espero que a gente entenda que não existe voltar pro que era normal e sim enxergar esse momento como uma possibilidade de cocriação de uma realidade mais justa pra todos. Somos a geração que é a ponte entre o velho normal e o novo.











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